Artista pula processo?
sobre cadernos e referências
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Hoje eu vou iniciar meu texto puxando uma reflexão feita pela Ursula Dorada (Sulamoon) sobre processos artísticos. Tudo começa no meme abaixo:
Basicamente, estamos falando sobre artistas que vivem insatisfeitos com seus resultados, e que não conseguem entender que o erro está em não seguir os processos necessários para atingir o que eles consideram uma boa arte. Mas, que raios de processos são esses?
Quem já leu qualquer um dos meus textos sobre arte sabe que eu sou bem contra qualquer regra que te faça seguir sempre o mesmo roteiro pra desenvolver uma arte. Dito isto, assim como a própria Sula falou, “processo” não se refere a uma sequencia obrigatória de lineart → cores → luz e sombra… Processo também não é toda vez que for desenhar um rosto, fazer um círculo com uma cruz no meio. Processo é estudo, é teste, é precisar repensar e refazer algumas vezes cada parte do desenho pra evitar ter que refazer a arte inteira depois de muitas horas de trabalho. Na verdade, tudo começa bem antes de pegar no lápis.
Dificilmente um falante de português vai conseguir escrever um bom texto em alemão na primeira tentativa. Antes de escrever, a pessoa provavelmente vai precisar de uns bons treinos, um bom estudo, e quando começar a escrever, vão ser frases curtas antes de um texto longo, e depois destas frases curtas, é preciso muita persistência pra chegar a um bom nível de escrita. Tudo isso demanda repertório, construção de experiências com o idioma. Com a arte não é diferente.
Como eu funciono melhor exemplificando do que explicando conceitos (até porque alguns conceitos podem não fazer tanto sentido pra quem não estuda arte), vou trazer um pouco do processo que eu segui em uma das minhas últimas artes, e, no meio, aproveito para te apresentar algumas referências interessantes. Senta que lá vem a aulinha de arte.
Eu tenho um total de cinco cadernos diferentes em uso (e não estou falando isso pra ostentar, nem pra dizer que você precisa disso tudo também, mas é meu processo.) O caderno 1 é uma cadernetinha de anotações que eu ganhei de Magdiel. Nela eu escrevo de tudo, desde minhas listas de tarefas à mini roteiros de tirinhas, passando por ideias para textos e desenhos que eu quero fazer.
O caderno 2 eu que fiz. É meu bloco de desenhos bobinhos, rabiscos, viagens… Minha proposta nele é desenhar sem nóia, testar canetas, formas, brincadeiras gráficas. Ele me mantém ativa mesmo nos dias que eu não estou desenhando nada pra um fim específico, nem quero mexer com coisas muito complexas. A gente precisa se divertir também.
O caderno 3 é o de levar na bolsa, comprei numa loja de departamentos. Eu uso ele pra estudos de observação, e esboços de ideias que eu tive quando não estava em casa. Ele me permite coisas como estar sentada na praça de alimentação e desenhar a estátua de astronauta do playground junto os vasos de plantas que decoram o shopping. Em que outra ocasião eu desenharia um astronauta por trás de vasos de plantas?
O caderno 4 é de desenhos finalizados, é um sketchbook que encontrei muito por acaso numa lojinha de bugigangas da China. Nele eu faço experimentações que possam ser usadas em projetos mais elaborados depois. Testo formas de fazer esboços, lineart, cores, colagens, com diversos materiais. Apesar de ter esta função de testes, eu considero todos os desenhos neste caderno finalizados, e acho que tem bastante coisa boa nesse caderno. São coisas que geralmente acabam sendo postadas aqui na newsletter e nas redes sociais.
Os quatro cadernos anteriores já contam bastante sobre meu processo: anotar, rabiscar, observar, testar. Então chegamos ao caderno 5, que eu ganhei da minha mãe no fim do ano. É meu caderno de esboços e estudos que vão ser finalizados no digital, ou numa tela, ou numa folha de aquarela… Neste caderno tem thumbnails, testes de cor, anotações… Foi nele que eu comecei este projeto aqui:
Destrinchando este esboço: Eu gosto muito da ideia surrealista de substituir a cabeça das pessoas por algo que não seja uma cabeça, como é possível ver na grade abaixo:




E pesquisando sobre algumas estéticas, mais especificamente a estética Soft Colonial Wanderlust, encontrei esta arte aqui, que foi minha primeira referência:
Esta estética específica pega referência do período vitoriano, mistura com Art Nouveau e dá uma viajada (literalmente esta estética fala muito sobre viagens por mar e aéreas, não é raro ver mapas, embarcações, nuvens e balões nessas obras). Além de desenhar uma pessoa com uma pérola gigante no lugar da cabeça, esta estética me inspirou ao plano de adicionar arabescos e texturas de papel ao desenho, como pode-se ver nas anotações do esboço.
Outra estética que me inspirou a fazer o cabeção de pérola foi a Silicon Dreams, que remete às primeiras modelagens e animações 3D (CGI) lá dos anos 90. Esta estética usa bastante da forma esférica pra criar composições com profundidade tridimensional, além de surreais. Foi esta estética que me fez decidir que este desenho seria finalizado digitalmente, pois só na pintura digital eu conseguiria chegar ao menos perto de emular essa “textura” 3D.
O fundo da imagem eu gostaria que fosse mais clean, pra que eu pudesse adicionar as texturas de papel, então quis adicionar nuvens, que fariam referência ao Soft Colonial Wanderlust e também ao Airbrush Surrealism. Já que eu já estava nessa pegada surrealista, me inspirei nas pinturas dos anos 70-80 feitas com airbrush (aerógrafo), que para além de viajar sobre tecnologias (assim como minhas outras referências), tinham bastante nuvens, esferas, e cores bem saturadas, do jeito que eu gosto. E claro que na pintura digital tem pinceis que simulam aerógrafo.
No fim eu adicionei umas faixas, tipo as que aparecem em algumas obras de Frans Post, o artista barroco holandês que fez uma série de pinturas do Pernambuco colonial durante a invasão holandesa. Pras fontes do texto, porém, eu fiz um misto de fontes ao estilo Jumbled Font, característico do Pacific Wave Punk, o tradicional oitentista maximalista, geométrico, colorido e extravagante…


E, pronto, o fruto desta amálgama nasceu, depois de pelo menos três dias de estudos.
Eu estou realmente muito satisfeita com esta arte e acho que super poderia fazer mais coisa assim, mas meu ponto aqui não é ficar enaltecendo meu resultado, mas sim me orgulhar de não ter pulado nenhum processo. E este processo não começou nos três dias de pesquisa, anotações e esboço, começou lá atrás, nos cadernos que em teoria não tinham nada a ver com esta arte em específico. Ou talvez tenha começado dez anos atrás, quando eu decidi que iria desenhar, mesmo “sem saber”, e me acompanhou durante todo este tempo em que eu insisti.
Espero que tenha dado pra entender que todo processo artístico é demorado em algum nível. Arte não é fast-food.
As tirinhas que ilustram o texto são de Magdiel
As estéticas foram pesquisadas no site do CARI Institute
Mais textos sobre artes visuais:
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