Quando um artista morre?
A trágica história de um artista lobotomizado
Sabe quando as vezes você está preso num feed infinito de vídeos curtos e uma dessas publicações te chama atenção e te tira daquele transe? Pois é. Duas imagens postas lado a lado em comparação, não só me acordaram, como despertaram a estudante/pesquisadora em história da arte existente em mim.


O post em questão tratava como mera “curiosidade” o fato de que as imagens acima são registros da obra de um mesmo artista, Lucio Noeman, antes e depois de passar por uma lobotomia. No início até desconfiei. Parecia só uma publicação rasa e sensacionalista, com muita cara de “fato desconhecido” que só é desconhecido porque, na verdade, é falso. Meu interesse por arte e saúde mental, porém, me levaram à checagem de fatos, que virou uma empenhada pesquisa. Não me bastava o choque do antes e depois de um cérebro lobotomizado, eu precisava saber quem era o artista, a pessoa por trás da lobotomia.
Lucio Noeman era brasileiro, nascido no Rio de Janeiro em 1915, e existe pouca informação sobre sua vida, principalmente sobre quem ele foi fora dos muros da Colônia de Alienados Engenho de Dentro (Ligada ao Centro Psiquiátrico Pedro II, posteriormente conhecido como Instituto Municipal Nise da Silveira). Sabe-se que ele tinha pouca instrução formal, e que trabalhou em diversas áreas, desde papelaria à venda ambulante de gravatas. É também importante ressaltar que mesmo sem nenhum estudo em desenho ou modelagem, Lucio desenvolveu trabalhos artísticos em madeira, que apesar de chamarem atenção de sua família, não foram conservados, e dos quais não há nenhum registro.
Em 1947 Noeman foi internado na instituição psiquiátrica, diagnosticado com esquizofrenia e submetido a terapia convulsiva e eletrochoques. Em sua mente parecia existir uma constante luta entre o bem e o mal. Ele relatava ter inimigos que o perseguiam, ouviam seus pensamentos e lhe aplicavam choques. Em nenhuma das minhas pesquisas ficou claro se os relatos sobre eletrochoques vieram antes ou depois da “terapia”, mas me parece seguro afirmar que não seria nada positivo para suas paranoias ele estar, de fato, sendo eletrocutado.
No filme de 2015, Nise: O Coração da Loucura, que conta sobre o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira com os internos do Engenho de Dentro, Lucio Noeman é introduzido como um personagem violento, ao qual se referem como “animal”, dito capaz de matar os demais internos, e isolado em cela solitária.
No livro O Mundo das Imagens (1992), pode-se encontrar o relato de Nise sobre o caso de Lucio Noeman. Ela conta que o próprio Lucio, frequentando a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação (aos cuidados da psiquiatra), pediu para participar da seção de modelagem. E assim nasce sua produção de esculturas de guerreiros que representavam a guerra entre bem e mal que já existia há tempos na sua mente.
Diferente dos choques e convulsões aos quais era submetido, a arte lhe proporcionava prazer e lhe dava oportunidade de expressar sentimentos, dando forma a emoções que não conseguia comunicar de outra forma. Seu trabalho, junto com o de outros oito frequentadores da seção de terapia ocupacional chamou atenção do crítico de arte Mário Pedrosa e do diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo, Leon Degand, resultando na exposição 9 Artistas de Engenho de Dentro, aberta ao público em 12 de outubro de 1949.
No dia 19 daquele mesmo mês, porém, enquanto suas obras ainda estavam expostas, o artista Lucio Noeman foi, nas palavras de Nise da Silveira, “decapitado”. No filme citado antes (mesmo que não conte sobre o desfecho trágico de Noeman), o médico responsável pelo seu caso é retratado como um vilão clássico, pouco preocupado com a integridade de seus pacientes, os vendo apenas como cobaias para seus experimentos sádicos. Ele demonstra empolgação em aplicar eletrochoques e considera genial a ideia de realizar uma lobotomia utilizando um picador de gelo. Fantasia à parte, o que se sabe é que apesar dos esforços de Nise para impedir o procedimento, Lucio Noeman foi, em vão, lobotomizado.
Já era de conhecimento do meio psiquiátrico da época que aquele tipo de cirurgia afetava diretamente a criatividade humana, mas isso parecia pouco importar caso o procedimento fosse capaz de frear a instabilidade emocional do paciente. Após o procedimento, a obra de Lucio perdeu expressividade e o meticuloso cuidado com acabamentos. Com o tempo, e a saída da terapia ocupacional, o artista perdeu completamente o interesse pela arte. Na sua mente, agora apática e pouco criativa, a luta entre bem e mal deixou de ser vista como um grande conflito entre guerreiros deuses e titãs e ele virou, como dizia, “gato e rato”.
As obras de Lucio Noeman hoje estão no acervo do Museu de Imagens do Inconsciente, fruto do trabalho iniciado na década de 40 por Nise da Silveira, que introduziu arte e socialização na vida daqueles internos. Este trabalho é de importância histórica para a conquista de tratamento humanizado de pessoas com transtornos mentais e para a luta antimanicomial.
Lendo sobre a história de Lucio e de outros artistas com os quais Nise trabalhou, não parei de pensar nos momentos em que só a arte faz sentido e que a arte pode não ser cura, mas decapitar nosso artista interior é fadar-se à ruína, pois a perca da emoção é a morte do artista, e, por mais que tenha vivido ainda por muitos anos, Lucio Noeman morreu naquela mesa de cirurgia.
Fontes:
Filme Nise: O Coração da Loucura (2015)
Livro O Mundo das Imagens (1992), por Nise da Silveira
Site Museu de Imagens do Inconsciente
Obrigada por ler até aqui, deixo o apelo pra quem quiser/puder, clicar no linktree que eu deixo no fim do post e ver todas as formas de acompanhar e apoiar meu trabalho.
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Obrigado por essa pesquisa! A imagem da comparação me apareceu em algum feed e tive o mesmo baque (e desconfiança inicial) que você. Só não tive essa sagacidade em ir atrás. Não tem tanto a ver, mas lembrei do caso William Utermohlen, que é bem documentado sobre a evolução do alzheimer enquanto continuava pintando.
meu deus, que história triste! :(