Uma garota de cabelo azul me tirou do fundo do poço
E assim eu virei artista
Este não é um texto novo, como já fiz em outros momentos, estou reciclando coisas que escrevo. Não sei exatamente quando escrevi, mas provavelmente foi em 2022 e estava “perdido” entre postagens do meu Instagram. Achei que ele merecia uma versão mais atualizada então vocês vão ler uma versão editada.
O ano era 2017 e eu tinha 25 anos. Obviamente não comecei a desenhar naquele ano, porque desenho desde criança, mas sempre digo que o começo de tudo foi 2017. Aquele ano foi o ápice do meu Transtorno de Ansiedade, (talvez menos que 2020, mas esse ano a gente tenta esquecer da existência) e coincidentemente, ou não, eu tinha decidido desenhar mais naquele ano. Pedi e ganhei lápis de cor de presente, transformei um bloquinho de anotações em sketchbook, com uma capinha cheia de referências de coisas que eu gosto: Harry Potter, Legend of Zelda, Super Mario, Marvel, História Sem Fim... Pra começar, desenhei uma bonequinha chibi, com um pijaminha igual ao que eu usava quando era criança, mas, obviamente, com o cabelo azul... esse desenho ficou inacabado por meses, ainda não foi esse cabelo azul que me tirou do fundo do poço.
Toda essa fase do meu transtorno tinha começado no meio de 2016 e só vinha piorando cada vez mais... em 2017 eu odiava meu emprego e sempre chorava no ônibus, em paralelo, estudava feito uma louca, na tentativa de passar num concurso e atingir estabilidade financeira. Foi então que as alucinações (que hoje eu leio como episódios de desrealização) começaram. As crises de ansiedade ficaram tão intensas que eu sentia cheiros que não existiam, não sabia se meus pensamentos eram lembranças de coisas reais, sonhos, ou déjà-vus, saía de lugares sem saber se o que eu me lembrava dali era real ou fruto da minha imaginação... Passei a me isolar, me esconder de pessoas conhecidas na rua... e em agosto daquele ano, no meio de tudo aquilo, ela apareceu.
Poderia ser parte das alucinações, mas o fato é que a imagem dela estava sempre na minha cabeça: uma garota de cabelo azul e esverdeado, insistentemente... Como eu tinha costume de escrever sobre sonhos repetitivos, para fazer eles sumirem, pensei que, talvez, se eu desenhasse a garota de cabelo azul, eu parasse de vê-la. E eu fiz, e daí por diante nunca mais parei de desenhar.
As alucinações pararam, as crises diminuíram consideravelmente, voltei a dormir bem, voltei a me sentir à vontade para sair de casa, ver amigos, ir a shows, festas... E descobri o que eu queria da vida naquele momento: estudar arte. Foi um longo processo de recuperação, mas em 2019 eu iniciei minha graduação em Artes Visuais, e isso mudou tudo pra mim. E mesmo hoje em dia (2025), eu já tendo me formado, quanto mais eu estudo arte, mais eu quero estudar.





Durante anos eu refiz o desenho da garota de cabelo azul, e desenho várias outras. Tem uma garota de cabelo azul pintada na parede do meu antigo quarto da casa da minha mãe. Até meu próprio cabelo eu cheguei a pintar de azul... Pra nunca esquecer que um dia eu estive no fundo do poço, e, como uma Rapunzel, desvirtuada de um conto de fadas, aquela garota jogou suas tranças e salvou minha vida.

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