Trabalhar com arte
"Monetizar hobby" é o caralho!
Eu sempre gostei de arte. E em algum nível, durante minha vida, só minha mãe (que é costureira e artesã) me incentivou um pouco. Dela eu ganhei revistas que ensinavam origami, tricô, e outras artes. Ela me deu os lápis de cor que iniciaram minha caminhada para me tornar artista profissional lá em 2017. Parece besteira, mas não imagino muitos pais presenteando uma filha de 25 anos, que do nada queria uma caixa de lápis de cor.
Meus irmãos também desenhavam, e tocavam instrumentos musicais (diferente de mim que nunca fui muito boa com música). Só que pra eles a arte acabou tomando um lugar de hobby, um escape dos seus trabalhos “sérios”. Eu também tentei. Fiz licenciatura em História, o que me dava o poder de estar em uma das profissões mais “sérias” possível: a de professora. Que erro grotesco.
Me formei com zero vontade de ir pra sala de aula. Tinha mais dúvidas do que respostas. Sempre gostei muito de estudar, mas partir para uma pós-graduação e virar pesquisadora também me parecia um destino ruim. Tentei entrar numa faculdade de Jornalismo. Jornalista é uma profissão “séria”, não é? Não passei. Tentei um técnico em Administração (meio que um coringa para quem não sabe o que quer, mas pelo menos é “sério”), desisti antes do primeiro semestre terminar.
Nesse meio tempo eu fui estudar idiomas, avancei bastante meu inglês e até que aprendi um pouco de espanhol. Isso me deu um emprego que eu não queria, mas senti que precisava. Virei professora de curso de inglês. Odiei cada momento. Fiquei cada vez mais ansiosa, mas passei cinco anos lá. Cinco anos, um afastamento com laudo de ansiedade e depressão, e então eu pedi demissão.
Ainda ensinando inglês, entrei na arte. Primeiro estudei por conta própria, depois fui pra faculdade. Depois de encontrar a arte não tive dúvidas de que aquele era meu trabalho. Eu dizia que tinha um trabalho não remunerado como artista, e um hobby remunerado como “teacher”. Um hobby bem ruim, porque apesar de eu amar o estudo de idiomas, dar aula é um pesadelo pra mim. Pelo menos dar aula num formato engessado e cheio de regra chata pra caralho é um pesadelo. Escolas e demais instituições com um modelo padrãozinho de ensino são um pesadelo. Me dói o estômago só de lembrar. Tive outro hobby remunerado que durou cerca de seis meses, dando aula de História. Tive burnout. Tive pensamentos intrusivos bem autodestrutivos. Adoeci fisicamente também. Só a arte continuava fazendo sentido.
Ler também é um dos meus hobbies que eu acabei remunerando. Trabalhei um ano em livraria, enquanto ainda fazia faculdade de Artes Visuais. A experiência lá foi infinitamente melhor do que dar aula. Lá eu caí da escada e quebrei a perna, e ainda assim foi melhor do que dar aula. Se me perguntarem, pode quebrar minha perna de novo, mas eu não volto pra sala de aula. Rolou muita coisa ruim, mas considero voltar a trabalhar em livraria. Aliás, eu queria mesmo era ter minha própria livraria.
Mas ler continua sendo um hobby. Assim como tricotar e crochetar (apesar de ter começado no crochê muito recentemente e não saber se talvez eu vá querer trabalhar com isso). Caminhada já fui um hobby, eu estou tentando voltar, porque é algo saudável. Mas as Artes Visuais… O desenho, a pintura, a colagem, as zines, os quadrinhos… ISSO NÃO É HOBBY. E eu não pretendo trocar isso por nenhum trabalho “sério”.
Quando eu cobro por encomenda, e vendo produtos com minhas artes, eu não estou monetizando um hobby, eu estou trabalhando. Posso não estar ganhando uma fortuna, mas estou trabalhando. Vou até repetir, que talvez reste alguma dúvida: EU ESTOU TRABALHANDO.
Ainda assim, se eu passar fome por não conseguir receber pagamento justo pelo meu trabalho, sei que pra muitos vai ser merecido porque eu escolhi ser uma artista desempregada. E quando, por ventura, eu arrumar um emprego “sério” (ou um hobby remunerado), por puro desespero, pessoas vão ficar felizes enquanto eu me sinto uma desgraçada.
Obrigada por ler até aqui, deixo o apelo pra quem quiser/puder, clicar no linktree que eu deixo no fim do post e ver todas as formas de acompanhar e apoiar meu trabalho.
Todas as ilustrações do texto foram cedidas por Magdiel.
Outros textos sobre minha trajetória artística:
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No meu trabalho “sério” sempre tem alguém que repete: não se pode ser feliz no trabalho.
Dizem isso sempre que estou tentando, minimamente, me aproximar de algo que faça um pouco mais de sentido do que a burocracia de sempre. E sempre dá errado de alguma forma, oq me faz lembrar da frase ouvida repetidamente. Trabalhar com arte seria, pra mim, mais do que ser feliz no trabalho, seria trabalhar com algo que tem significado. E isso provavelmente me deixaria feliz. Desejo muito sucesso nessa jornada, que parece difícil (e deve ser mesmo) mas tb parece muito significativa :)
o duro de ser artista é que vc se diverte trabalhando e isso ofende as pessoas.