Nem prevenida, nem remediada
o terror das caixas vazias
Eu geralmente faço uma grande compra de remédios a cada dois meses. E eu tomo muitos remédios. Diariamente são quatro comprimidos que prometem me ajudar com as dores da fibromialgia e da enxaqueca, com o transtorno misto ansioso depressivo e com as crises de insônia. E sempre tem aqueles antialérgicos, analgésicos e antiácidos que ficam na caixinha esperando seu uso emergencial.
O problema é que a cada dois meses praticamente todos os remédios acabam. Distraída com o conforto de ter criado um “estoque” de medicamentos, eu esqueço das consultas de renovação de receitas. De repente eu tropeço e caio num fundo de poço vazio.

Dentro do poço eu mal durmo, e quando durmo, mil sonhos malucos acontecem. Eu sonho em loop. Uma história termina, então eu começo a recontar a história, e ela recomeça, e muda tudo, e termina, e eu começo a recontar, e ela recomeça… Nessa maluquice, já se foi o sono reparador. Acordo cansada, vivo cansada. Fico horas imóvel na cama. Todas as dores envolvem meu corpo. Viro uma massa de sentimentos ruins.
A improdutividade gerada por este ciclo me deixa frustrada. A lista de tarefas cresce. Trabalhos acumulam. De alguma forma, mesmo sentindo que não me movi o dia todo, no fim tem uma bagunça enorme ao meu redor, que eu mesma fiz na tentativa de existir, mas deixei pra trás, como um ato de ódio ao meu eu do futuro que terá de lidar com tudo isso.
Tudo isso pela falta de alguns fármacos no dia-a-dia? Isso não é abstinência? Talvez, mas talvez eu só tenha uma série de doenças crônicas que precisam de um mínimo de cuidado durante toda a minha vida. E, se o cuidado, neste momento, for tomar remédios, eu não ligo de tomá-los por tempo indeterminado.
Tudo muda quando os remédios voltam a circular no meu sangue. Eu não me curo das minhas doenças, mas descansar enquanto eu durmo me deixa bem demais. Minha casa limpa, meu almoço da semana prontinho na geladeira, minha lista de tarefas organizada e com mais coisa feita do que por fazer… tudo isso me deixa bem demais.
Essa semana eu senti um sopro tão genuíno de alegria que chegou a ser tragicamente engraçado que o bom humor que eu estava sentindo me fez me empolgar tanto nas minhas tarefas que eu esqueci da sessão com a psicóloga. E é isso. De um lado estou medicada, de outro, estou sem a “terapia em dia”.
Estou também suprimindo o sentimento de desespero por ter jogado os quase 400 reais da conta da farmácia no cartão de crédito, mesmo sem saber de onde vou tirar este dinheiro. Nada fica bem durante muito tempo dentro do capitalismo.
Felizmente eu sou artista, e estou trabalhando nuns projetos de ilustração que tem me deixado contente e que com certeza vão me deixar muito feliz quando estiverem disponíveis para o mundo. Felizmente eu pude alegrar uma mãe que encomendou uma pintura em aquarela da sua bebê, e eu pude pintar mãozinhas fofas e um headpiece icônico de cachorrinho.

Espero receber mais pedidos de encomenda assim, inclusive, se quiser, tem detalhes sobre as encomendas de aquarela por aqui:
Parece que eu estou de volta à ativa, mesmo tudo seguindo meio desequilibrado, porque é assim que a vida é, e eu não posso e nem devo sentir vergonha de viver como eu vivo.
Obrigada por ler até aqui, deixo o apelo pra quem quiser/puder, clicar no linktree que eu deixo no fim do post e ver todas as formas de acompanhar e apoiar meu trabalho.
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a humanidade desse texto... fico entre algo tipo "me vejo nesse post e não gostaria" e "é isso aí tem que continuar tentando e de preferência da melhor forma"