Este texto não é sobre carros
Na sociedade da baixa manutenção, seja um fusquinha.
Meu pai dirigia um fusquinha azul. Na verdade ele dirigiu vários fuscas azuis durante sua vida, mas um em específico sempre me vem à memória, o que ele dirigia quando eu era adolescente. O fusquinha era valente, aguentava bem as estradas ruins que meu pai pegava a trabalho e era um personagem importante das nossas idas à praia. Nos fins de semana meus irmãos mais velhos disputavam quem iria motorizado de fusquinha pros seus rolês. Na rua, o azul claro quase cintilante chamava atenção junto com as rodas brilhantes e a bandeira do time do coração da nossa família tremulando na janela.
Ter um carro antigo em casa não é nada barato. Além de limpo e abastecido (e eles consomem bastante combustível), é preciso muito mais cuidado com a manutenção do que um carro novo. Meu pai fazia questão que o fusca fosse além de bonito, funcional e suficientemente potente, e para isso, deixava o fusca na oficina várias vezes por mês. O que muitos considerariam transtorno, dor de cabeça, pro meu pai, muitas vezes era tratado só como parte da experiência de ter um fusca. O fato é que todos nós que tínhamos aquele carro como parte da família aprendemos uma lição: o segredo para ter um carro velho é a manutenção. Agora, se a carros velhos nós devemos alta manutenção, por que será que começamos a acreditar que a velhos amigos devemos baixa manutenção?
Minha relação com as outras pessoas vem sendo um tema recorrente por aqui, porque eu estou sempre pensando sobre isso, o que me fez ter conversas interessantes tanto na terapia, quanto com amigos. E eu acabei chegando a algumas conclusões, mas a principal delas é: eu quero ser um fusquinha.
Talvez pessoas tão ansiosas quanto eu possam se identificar com isso: se isolar achando que as coisas vão melhorar sozinhas e que tá tudo bem reaparecer nos ciclos depois que a fase ruim passar. Mas, spoiler, não é assim que a vida funciona. Comigo, depois de muito me isolar eu passo a achar que se eu mandar um um "oi, td bom" a pessoa vai me achar creepy por estar aparecendo "do nada", então se eu não tenho uma constância de contato com a pessoa, eu passo a me sentir desconfortável pra falar com ela.
Na minha realidade de quem trabalha, estuda, se exercita e as vezes se diverte dentro de casa, é difícil ter frequência de contato com alguém no mundo externo. Não tem colega de trabalho, ou da faculdade. Não tem aquela pessoa que eu vejo sempre na academia, nem um amigo com quem eu tome um café ou um vinho mensalmente. Então me restam as pessoas com quem, por algum motivo, eu troquei mensagens na última semana. Parece exagero, mas, se eu não falei com a pessoa a mais de um mês, eu posso literalmente ter crises de pânico só de pensar em procurar essa pessoa. Assim como um fusca, que se passar muito tempo parado precisa de empurrão pra pegar, eu também não funciono em baixa manutenção.
Acho que eu não preciso explicar nesse texto o conceito de “amizade de baixa manutenção”, porque naturalizaram demais isso, a um ponto que as pessoas não se importam mais de serem presentes. Mas, a quem interessa isso, né? A quem interessa que a gente tenha cada vez menos tempo pra família e amigos e ache que tá tudo bem ver pessoas apenas através de redes sociais? Afinal, a coletividade é uma parada que tem força demais e o sistema quer nos tirar isso pra se manter seguro. Enquanto isso quem fica vulnerável é a gente. E vulneráveis, nós caímos muito fácil na armadilha de achar que não precisa da presença e de estar presente, porque "ah, qualquer coisa estamos à distância de um clique".
Gente precisa de gente. Dá mesmo pra passar um ano sem ver um amigo e ficar tudo bem? Tem certeza que não muda nada? Tem certeza que teu amigo não vai encontrar uma pessoa bem mais cansada e com a saúde mental bem mais debilitada daqui a um ano? Caso ainda não tenha reparado, ninguém capaz de ler esse texto tem zero quilômetros rodados, e espera-se que um dia todos se tornem tão velhos quanto o fusca do meu pai. Quantas mãos você tem por perto pra te dar um empurrãozinho quando você precisar muito reaquecer o motor pra continuar vivo?
Obrigada por ler até aqui, deixo o apelo pra quem quiser/puder, clicar no linktree que eu deixo no fim do post e ver todas as formas de acompanhar e apoiar meu trabalho. E se você estiver passando por problemas relacionados a saúde mental, não deixe de procurar ajuda.
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Texto foda miga!! Me identifiquei dms com tudo que vc falou. Sendo PCD cadeirante e basicamente fazendo tudo dentro de casa, além de ter a questão de pra sair é necessário a disponibilidade do outro, acabo por passar por muitos momentos assim de me sentir sozinha pq a maioria das minhas amizades residem por essa ideia de "amizade de baixa manutenção", onde mal mandam mensagem, mal conversamos, algumas fazem anos que não temos uma conversa além de papos no grupo de amgs do whatsapp, ou pra marcar um rolê é um parto e dificuldade imensa, onde no final sempre dá errado, a conversa é "tô sempre aqui pra o que precisar" "tô com sdd vamos marcar algo" mas nunca existe presença de fato. Além de por muito tempo me sentir nesse lugar de sempre ser a que procura, sempre a que tenta animar um rolê, e chegar a um ponto que cansei de ter esse papel e só deixei pra lá, só que aí vem essa questão do "se sentir sozinha", de sentir dificuldade de fazer novas amizades tendo a minha dinâmica de vida, e aí fica cada um na sua vida, em sua correria, e nunca rola tempo pra nada.
TEXTO MARAVILHOSO